casse-toi, pov con!

Hoje, posso dizer que entendo um pouquinho certas coisas da França e dos franceses. Mas não consigo entender como o Sarkozy foi eleito duas vezes presidente desse país. A gente pensa na França e pensa no Iluminismo, na Revolução, nas manifestações, em maio de 1968, nos intelectuais, nas bibliotecas. E aí os caras elegem um broder que fala que nem um adolescente revoltadinho, capaz de fazer uma declaração como a acima, mais ou menos equivalente a “se manda, idiota”.

O que me choca não é o Sarkozy. É ver como tem gente que compra seu discurso de “a França para os franceses”, sua postura extremamente agressiva e um forte discurso antiimigração, racista.

Ele diz que “os imigrantes legais são bem-vindos, mas os imigrantes ilegais, nós os acompanharemos para o país deles” ou “a França não pode ser o único país da Europa a aceitar os imigrantes livremente”. Proporcionalmente, no entanto, a França tem menos imigrantes do que a Alemanha ou a Inglaterra. Além de Sarkozy dizer uma mentira (que a França é o único país da Europa a aceitar imigrantes), ele faz esse discurso com um tom de animosidade que é facilmente malinterpretado pelos burocratas. Assim, apesar de ele dizer que “os imigrantes legais são bem-vindos”, conheço histórias e mais histórias de gente que teria o direito a um papel, um visto, um titre de séjour, mas por razões de idiotice caem na clandestinidade.

Ao mesmo tempo em que o pessoal vota nele porque não quer que os filhos frequentem os árabes ou os africanos, muitas dessas pessoas acham superbacana bater na porta dos chineses ou dos árabes para vender para as novas potências econômicas mundiais. O dinheiro eles querem, as pessoas, não. Contraditório. Ou você aceita o pacote completo ou desencana de tudo.

Por isso, mesmo que eu não vote e não tenha absolutamente nenhum direito de palpitar na política do país, estou torcendo para o Hollande. Pra começar, ele é de esquerda. Mas não é só isso. A vitória dele será, sobretudo, um soco na cara desse pensamentozinho medíocre, de que os imigrantes “roubam” lugares dos franceses e etc.

O pessoal em casa está roendo as unhas para hoje a noite. O clima é de final de Copa do Mundo. Uma amiga da minha coloc acabou de ligar dizendo que vai ter que ocupar a cabeça hoje porque não está se aguentando de ansiedade.

A Sasha entrou na campanha. ;)

PS: ontem, minha coloc me contou que Carla Bruni teve um relacionamento com um músico superfamoso na França, depois com um filósofo que, além de inteligente, é superbonito. E aí ela casou com o Sarkozy. Eu disse: “ah, gata, como minha avó dizia ‘há quem goste dos olhos, há quem goste da remela’”.

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pequenos prazeres do supermercado

eu tenho uma tara por supermercados. E não é pela parte gourmet, nada disso. Gosto de ir e ficar olhando os rótulos dos produtos de limpeza, da parte de armarinhos, dos shampoos. Gosto de escolher com calma cada produto. Achei surpreendente quando soube que tem gente que odeia com todas as forças essa atividade – até já me ofereci como personal supermarketer.

Alguns pequenos prazeres do supermercado francês. E não estamos falando em queijo nem em vinho porque aí é covardia. ;)

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My Charonna (o post mais besta do ano)

eu moro no metrô Charonne

um amigo que vem pra cá exige trilha sonora

somos bestas

sem mais

(PS: eu estava guardando essa foto tentando pensar em um post sobre nomes de estações de metrô que me fazem rir só porque sou idiota. Por enquanto nenhuma, nenhuminha bateu Buzenval. Buzenval. Passo por ela pelo menos quatro vezes por semana e fico repetindo internamente: “Buzenvalllll Buuuzzzeeenvalllll” e fazendo rimas imbecis. E você achava que tinha visto gente idiota na vida. )

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um sábado no Marais

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mate os insetos, os moluscos, o cachorro, o gato e sua família

Então eu tive uma pequena desavença com minhas colocatárias do apartamento antigo. Não era nada pessoal, mas não era bacana chegar da balada às 4 da manhã e dar de cara com uma lesma obesa e verde babando em cima da minha louça. Ou terminar de ver Amelie Poulain, virar para o lado e ter seu momento suspiros destruido por cinco pequenos moluscos se arrastando perto da pia da cozinha, sem você saber de onde elas vieram.

Primeiro, quase morri de nojo. Depois lembrei de uma matéria que eu fiz para a Vida Simples sobre um trabalho de uma professora da USP em Pirassununga que utiliza lesmas (de laboratório, leempeenhas) no apoio da socialização e da sensibilização de crianças autistas. Lembrei que até peguei uma lesma dessas na mão – e, juro, ela é tipo um cachorro, gosta de carinho e tals.

Aí me preocupei com o motivo de elas estarem ali. Logo conclui: o apartamento era tão úmido, mas tão úmido, que era um local ideal para elas viverem. Apesar da minha simpatia pelos animais, inclusive pelas lesmas, não achava legal que a gente dividisse o mesmo espaço. Então fui procurar algo na internet, um “espanta lesmas natural”.

Várias receitas indicavam pegar uma lata, encher de cerveja e esperar o dia seguinte. “Elas irão todas em direção da lata e, de manhã, você joga sal e elas morrem”. Uma vez eu joguei sal numa lesma. Não é legal. Dá uma certa agonia de ver a bichinha morrer sufocada. (Sim, eu sou a Lisa Simpson também nisso.) E eu não queria matá-las. Eu só queria que elas não zanzassem nos meus pratos e nas minhas panelas. Tipo be sure to wear some flowers in your hair.

Fui a uma loja dessas “brico-não-sei-o-que” procurar então esses aparelhos antiumidade (ou anti-umidade? Socorro, Houaiss.) Andando pelos corredores, passei pela parte de jardinagem e click “claro, aqui deve ter uma solução para espantar as lesmas!”

Eu pensava em algo meio hippie, tipo que conseguisse limitar o meu espaço e o delas numa boa. Na minha cabeça, seria fácil achar algo assim, afinal, a ciência está tão avançada em tantos campos, dá até para mexer objetos com o poder da mente…

Não. A ciência não tem nada simples. Só soluções do tipo ACABE-AGORA-COM-MOSCAS-LESMAS-POMBOS-RATOS-GAMBÁS-MATE-TUDO-MATE-TODOS!!!. Lembrei daquela passagem de Sete Dias no Tibet em que o Dalai Lama incumbe o alemão (ou austríaco?) de construir um cinema sem machucar as minhocas. “Seu Dalai ficaria meio horrorizado aqui. Acho.” Mas o problema não era só isso. O problema é que os trecos matavam os “invasores” e os demais habitantes da casa, incluindo sua família.

Resolvi que teria que conviver um tempo com as lesmas e que eu lavaria as louças antes de usá-las.

 

 

 

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le samedi matin / sábado de manhã

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O incrível apartamento do 11eme e a sensacional gata Sasha

Depois de alguns meses amargando um apartamento que parecia uma piada de mau gosto, finalmente encontrei a paz.

Sempre desconfiei da minha capacidade de morar com outras pessoas que não da minha família porque estava convencida de ser a pessoa mais antissocial do mundo. Porque fui convencida de que não conseguiria morar com ninguém. E finalmente porque essa coisa de morar com uma pessoa que você não conhece não podia dar certo. “Se já é difícil conviver com quem você conhece…”

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Uma pessoa conhecida, brasileira, estava saindo desse apartamento e precisava de alguém para o lugar. Na época, eu ainda não estava em pé de guerra com o adEvogado, mas já estava com muita muita birra dele, da imobiliária, do apartamento, das lesmas, então pensei “foda-se. Se for uma merda, pelo menos eu sei que ela é decente e vou dar meu dinheiro a alguém decente em vez de enfiá-lo no rabo desse desse proprietário do cacete.”

Além disso, pelo mesmo preço, eu teria internet, televisão, e trocaria 15 metros quadrados por 70 metros quadrados, poderia receber pessoas numa sala decente, teria uma cozinha e não iria dormir com o cheiro de peixe do jantar ainda pairando pelo estúdio. Teria janelas. Sol. Luz. Teria a companhia de uma gata figura.

Na primeira noite em que vim aqui discutir os termos do aluguel, acabamos secando uma garrafa de vinho com ela me contando dos quatro bares temáticos que ela teve em Paris. Dizem que Nicole foi a rainha da noite parisiense durante 10 anos e discutimos durante duas horas os temas em questão, a noite parisiense, os parisienses e tals. Foram 5 minutos sobre o aluguel e 1h45 sobre todo o resto. Ali eu disse “estou otimista”.

Foi a melhor decisão que poderia ter tomado. Ela é fotógrafa, o que é sensacional, tem uma cabeça ótima, tem paciência pra me explicar coisas idiotas do dia a dia do tipo “por que as pessoas preferem a baguete tradição em vez da normal” ou “por que essa pecinha é feita assim” ou mesmo para me dar uma opinião do tipo “cara, hoje ouvi alguém falar que detesta Paris. Você gosta de Paris?”.

Definitivamente, prefiro morar em coletividade a morar sozinha. Detestei a experiência de morar sozinha. Digo, em algumas noites era bom, mas ouvir os barulhos da casa, o rádio no quarto do lado, os passos, ter alguém pra dizer bom dia, boa noite, muda toda a minha relação com a vida, com a cidade, com o país. Me faz ser menos perfeccionista e exigir menos dos outros porque consigo ver mais fácil todo o garbage inside.

E aí tem “vou colocar uma cortina no seu quarto pra você poder ter mais escuridão de manhã, que cor você prefere” ou “pelo amor de deus, você dorme com esse cobertorzinho, perae que vou te descolar algo decente. A época de lesmas acabou!”.

Tudo bem que tenho que aguentar piadas sobre comer comida do Picard (o paraíso da comida congelada – bom e barato). Mas é só porque ela cozinha bem pra cacete. Minha sorte é que ela me convida pra comer com ela, com seus amigos e tals.

Meu último mês foi bem divertido. Vejamos as cenas dos próximos capítulos. Por enquanto, recebi o título de melhor colocatária desde 1999. Mesmo comendo Picard.

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